IV Domingo da Quaresma

 Dia 3/4/2011

 

Celebramos o IV Domingo da Quaresma marcado pela nota da alegria porque se aproxima a solenidade das festas pascais. É por isso mesmo chamado o domingo da alegria, porque de alguma forma antecipa as alegrias da ressurreição de  Nosso Senhor Jesus Cristo que celebramos na  Vigília Pascal e no Domingo de Páscoa. É um domingo que faz parte do conjunto das 3 semanas que constituem o coração da Quaresma e portanto são o tempo favorável por excelência para revermos a nossa vida pessoal e comunitária à luz da mensagem evangélica. Está em causa recuperarmos a alegria e a esperança que marcam, por si mesmas, a nossa condição de baptizados. Preparamo-nos, assim, também para  renovar as promessas do nosso Baptismo na noite pascal. E nunca é demais lembrar que a única fonte de renovação, de revitalização que nós temos é a Pessoa de Jesus Cristo.

Jesus é a Palavra Viva e a luz que ilumina os nossos caminhos. É de luz e capacidade de ver bem e em profundidade que nos fala hoje a Palavra de  Deus proclamada.

 

Assim o Evangelho apresenta-nos a Pessoa de Jesus a dar capacidade de ver a quem nunca a teve – aquele cego de nascença. Para ver bem  é preciso que haja luz mas  também  é necessário que a pessoa tenha capacidade de ver. No quadro bíblico de hoje Jesus interveio para conjugar estas duas condições – a luz do sol e a capacidade de ver. Porém, esta experiência imediata é  completada pelo ensinamento que Jesus vai acrescentando, em que aponta para uma outra cegueira e uma outra falta de luz que se concretizam em obras e atitudes contrárias ao bem das pessoas e à vontade do criador.

Este cego de nascença passou por algumas dificuldades para garantir o seu estatuto social de pessoa normal com capacidade  de ver como ou outros. Superou as dificuldades, mas foi quando descobriu a verdadeira identidade de Jesus, Filho do Homem   e Salvador, que ele se colocou decididamente   do lado dos que eram cegos e passaram a ver, a ver a realidade de vida e do mundo na sua verdade  e profundidade, com ajuda da nova luz que é Jesus Cristo. São os verdadeiros frutos da Luz enumerados por S.Paulo, na carta aos Efésios, que também queremos cultivar – a bondade, a justiça, a verdade. Mas também queremos recusar as obras  das trevas, porque queremos ser filhos da luz por força da nossa condição de discípulos de Cristo.

Esta condição dá-nos, de facto uma luz nova, essa luz que nos torna capazes de olhar o mundo e as pessoas como quem vê para além das aparências e fica capaz de ler a profundidade dos corações, discernindo neles o dedo de Deus e os seus apelos como o fez o profeta Samuel na escolha de David. Pelas aparências ele era, de facto, o menos recomendado para o desempenho da missão de Rei do Povo Eleito.

 

É essa luz nova, que, nesta Quaresma e, em particular no tempo imediatamente preparatório de Páscoa, nós  queremos acolher. É a nova capacidade de ver para além das aparências que também, na comunhão com a pessoa de Jesus Cristo, luz que a todos nos ilumina, queremos cultivar.

Sentimos que precisamos de pessoas cada vez mais consciente s e verdadeiramente esclarecidas para intervirem activamente na  definição dos caminhos que devem ser percorridos quer pela Igreja  quer pela sociedade. Sabemos que Deus é o único condutor ao mesmo tempo da Igreja e da sociedade. Mas também sabemos da sua decisão de fazer das pessoas seus parceiros no exercício desta condução.

3.1.Olhando para a vida da Igreja, sob o efeito da Luz verdadeira que é o mesmo Senhor Jesus Cristo, temos obrigação de participar com o máximo empenho na definição dos caminhos que ele deve percorrer hoje para cumprir a dupla fidelidade a Jesus Cristo e seu Evangelho, por um lado, às novas circunstâncias da hora actual, por outro. Sentimos que a fidelidade a Jesus Cristo nos pede mais determinação para constituirmos uma Igreja  pobre, humilde,  sempre à procura de formas de serviço  à sociedade cada vez mais purificadas.

Queremos  recusar sempre a tentação do  poder que não é serviço, a tentação de colocarmos as nossas esperanças em realidades efémeras e passageiras ou então querermos só resultados palpáveis e imediatos na nossa acção pastoral. Temos de lembrar constantemente a nós próprios, enquanto discípulos de Cristo, que só a relação viva e forte com Ele nos serve e todos os dias temos de reexaminar as nossas opções  e comportamentos à luz da sua  pessoa e das opções que Ele também fez. Sentimos ser Sua vontade que façamos progressos no modelo de Igreja que se entende a si mesma como uma  comunhão de pessoas baseada na comunhão que existe no seio da Santíssima Trindade. E sentimos que ao serviço desta comunhão precisamos de criar e alimentar uma  autêntica rede de serviços, a que chamamos comunhão de Ministério. Nesta rede ou comunhão de ministérios todos são importantes e nenhum é mais importante do que os outros, na condição de cada um ocupar o devido lugar no exercício das suas competências. Isto quer dizer que o Bispo não deva substituir padres; estes não devem substituir os diáconos ou outros ministérios, mas todos temos de saber encontrar sob a condução do Espírito Santo e de Jesus Cristo, o único Bom Pastor, os caminhos de cooperação, complementaridade e comunhão que a Igreja precisa de percorrer para ser Sacramento do Reino de Deus no serviço à  comunidade humana.

 

Cumpre-nos também como Igreja e como cristãos exercer a nossa responsabilidade esclarecida, participando na organização da sociedade. Precisamos de uma sociedade nova – porque aquela que temos está gasta e os seus modelos de organização provaram sobejamente que não servem os verdadeiros interesses das pessoas. Precisamos de uma sociedade nova que se saiba organizar principalmente de dentro para fora e de baixo para cima, mais do que de cima para baixo. Para isso é necessário saber promover o máximo exercício de responsabilidade  por parte de todos os cidadãos. Sempre as sociedades progrediram através das iniciativas e do trabalho dos  seus membros. Hoje o trabalho assume formas organizativas complexas e completadas por meios técnicos, mas não pode ser substituído ou eliminado. O trabalho humano não é só um meio de produção, nem como tal deve ser principalmente avaliado. Precisamos de condições para que as pessoas se entusiasmem nos seus processos de trabalho  e sintam cada vez mais  que, pelo trabalho, aumentam  a produção material, mas também e principalmente dão expressão à sua criatividade, realizando-se como pessoas.

Todos sabemos que numa sociedade há os que, de facto, trabalham para obter resultados económicos e fazer crescer a riqueza do seu país. Mas há também os que não trabalham porque já trabalharam e os que  ainda não trabalham  porque se preparam para trabalhar  amanhã e ainda aqueles que não trabalham por falta de saúde ou outras condições. Daqui  resulta que a responsabilidade de quem trabalha é grande e ninguém pode fugir a esta  responsabilidade.  É grande a responsabilidade de quem trabalha, mesmo considerando apenas a produção material, porque dela depende a sua sustentação e da sua família, mas também  a de todos os outros que ficam fora do trabalho pelas razões apontadas. Acrescente-se ainda o sustento da máquina administrativa do Estado, que tem de servir para garantir a justiça  na equitativa distribuição dos recursos.

Sabemos que tem a sua complexidade fazer a correcta gestão deste conjunto  de factores, além de outros, que geram a saúde de uma comunidade. Mas temos de ter a coragem de gerir com a máxima justiça este quadro  de relações e inter-acções. Temos sobretudo que pedir a cada um dos intervenientes neste quadro uma consciência bem esclarecida das suas responsabilidade e sobretudo tem de haver formas de impedir que qualquer deles se aproprie indevidamente de recursos que lhe não  pertencem ou se recuse sem razão a dar o seu contributo, pelo trabalho e pela forma como  intervém nas decisões, para a autêntica promoção do bem comum.

Quando  a sociedade portuguesa está em período de reorganização e a ser pressionada por forças externas ao país para que dê provas de capacidade para se autogovernar, é preciso que todos nós, como cidadãos esclarecidos e responsáveis, saibamos ocupar o nosso lugar.

Para isso precisamos de informações muito claras quer sobre a situação actual da nossa administração pública quer sobre os processos que motivam as pessoas para a iniciativa  e o trabalho quer também sobre aqueles que distribuem os seus resultados.

Claro que para uma boa organização da sociedade não basta garantir os bons resultados  da produção material e até a sua justa distribuição. Há valores mais altos do que estes sem os quais as pessoas não podem ter  vida de qualidade. E aqui incluimos sobretudo os bens da proximidade e da boa relação entre as pessoas que temos de melhorar. estas não podem ser tratadas como números, mas acolhidas  sempre como pessoas em comunidades nas quais ajudam e são ajudadas a realizar  a sua vocação para a comunhão. E precisamos de não descurar estas metas que as contas públicas não contabilizam  mas são, de facto, a parte mais importante  da nossa vida em sociedade.

 

É diante da Palavra de Deus que queremos, como discípulos de Cristo, aprofundar o nosso sentido de responsabilidade quer  para actuarmos na vida Interna  da Igreja quer para intervirmos o mais activamente possível na vida  da Sociedade.

Palavra de Deus que queremos ler e compreender, quanto possível em grupo, para sabermos o que ela pretendeu dizer aos que a escutaram no primeiro momento em que foi pronunciada.

Palavra de Deus que queremos meditar para ver o que ela diz a cada um de nós hoje e aos grupos em que nos inserimos.

Palavra de Deus que queremos rezar, para, no diálogo com Deus, aperfeiçoarmos a nossa capacidade de  resposta aos apelos que ela nos faz,

Palavra de Deus que de facto é luz que ilumina os nossos caminhos e os caminhos do mundo, e, por isso, na contemplação pessoal e de grupo, queremos aprender a discernir o melhores caminhos diante da Pessoa de Jesus, a Luz verdadeira. Ele é,  de facto, fonte de vida e vida em plenitude, assunto que trataremos no próximo domingo.

 

+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda

 

publicado por dioceseguardacsociais às 10:53