Jesus é a Palavra viva que nos transfigura

 

l. neste segundo domingo da Quaresma contemplamos o  mistério da Transfiguração de Jesus. Pedro, Tiago e João no alto do monte Tabor ficam deslumbrados com a figura de Jesus resplandecente de luz. Com Ele falavam  duas figuras do Antigo Testamento – Moisés e Elias e o tema da conversa era, como diz o Evangelista S. Lucas no lugar paralelo a este de S.Mateus, a morte de Jesus. Se lemos a passagem imediatamente anterior do Evangelho, encontramos Jesus a fazer o anúncio da sua morte que vai acontecer em Jerusalém E, perante o escândalo  dos doze, o mesmo Jesus acrescenta ainda mais matéria de escândalo, sublinhando o estatuto do verdadeiro discípulo, ao dizer: “Se alguém quiser seguir-me, renegue-se a sim mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a vida há-de perdê-la…!

A transfiguração anuncia a identidade divina de Jesus, sem esconder o percurso difícil que Ele teve de fazer para cumprimento da vontade do Pai e Salvação da Humanidade, o qual incluiu a Paixão e a morte, imposta pela maldade dos homens, rumo à vitória  sobre a mesma morte, na Sua Ressurreição.

 

2. E agora nós que havemos de fazer para dar cumprimento, à mensagem da Transfiguração de  Jesus?

Primeiro, temos de saber olhar para a nossa vida pessoal, comunitária e social e ver quais são os aspectos que precisam de ser transfigurados  e que caminhos nos podem conduzir a essa transfiguração. Para o discernimento  desses caminhos a Palavra de Deus hoje proclamada dá-nos indicações  claras.

Assim, o Patriarca Abraão transfigurou a sua  vida e a vida do mundo quando teve a coragem de trocar as seguranças comuns de família, país, cultura, religião, pela única segurança que  dá verdadeiro sentido à vida de qualquer pessoa e mesmo de qualquer Povo – colocar-se  nas  mãos de Deus para serviço da comunidade. Também Paulo apontou ao seu discípulo Timóteo, no exercício da missão episcopal de condutor do Povo de Deus, um caminho que é no mínimo surpreendente, ao dizer-lhe:  “Sofre comigo pelo Evangelho  apoiado na força de Deus”.

 

3. A Igreja em Portugal  encontra-se  à procura de novos caminhos e mesmo de novas formas de ser Igreja para interpretar bem e levar  à prática a mensagem libertadora de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando  Tentamos responder ao apelo do “repensar juntos a Pastoral da Igreja em Portugal”, sentimos à partida, que qualquer pastoral, para ser digna desse nome, tem de nos conduzir para o encontro com o Senhor Jesus e Sua Palavra e só depois pode levar a tarefas concretas. Por isso, o encontro com Cristo vivo, através da leitura meditada e partilhada da Sua  Palavra presente na Bíblia, é a nossa grande prioridade. É a partir deste encontro vivo com o Senhor Ressuscitado que a Igreja tem de se organizar para prestar o seu serviço à comunidade portuguesa, na situação difícil em que se encontra. Esta situação difícil torna urgente que sejam repensados os caminhos da gestão da coisa pública que estão a ser percorridos. Isto, porque as pessoas,  em geral, não estão satisfeitas e o nível da sua insatisfação cresce em vez de diminuir. E não pensemos que esta insatisfação  acabaria se estivessem equilibradas as contas públicas e a nossa  volumosa dívida externa estivesse por inteiro saldada. Sem dúvida que este é um  gravíssimo problema que tem de preocupar todos os portugueses.

Todavia,  a insatisfação das pessoas temos obrigação de a saber avaliar principalmente a partir da falta de condições para conseguirem a qualidade  de vida que não têm.

Essa falta de condições de vida com qualidade  manifesta-se principalmente no elevado número de pessoas que estão fora do trabalho e consequentemente impedidas de participarem activamente no desenvolvimento. Estão fora do trabalho porque perderam o emprego, ou ainda não conseguiram o primeiro emprego ou então não têm condições para tomarem a iniciativa de criarem o seu próprio trabalho. Temos de encontrar formas de mobilizar as pessoas todas para um verdadeiro projecto comum, que poderemos chamar de desígnio nacional. Um desígnio que saiba aproveitar as potencialidades de crescimento que temos e, em particular, os recursos humanos mais qualificados que existem na população portuguesa. E aqui há exemplos que não são nada animadores.

Cito apenas um. No ano 2010, o número de licenciados que saíram do nosso país à procura de emprego no estrangeiro cresceu numa percentagem  de 57%. Temos de concordar em que é frustrante saber que o Estado Português suportou custos elevados com a formação de quadros qualificados que agora oferece de bandeja a outros países. E podemos acrescentar outras incapacidades verificadas na gestão da coisa pública do nosso país. Só cito mais um exemplo. O Estado português endividou-se  e continua a endividar-se ao estrangeiro e não teve arte nem engenho para aproveitar da melhor maneira os fundos comunitários que há mais de 2 décadas lhe estão a ser atribuídos para vencer a distância que nos separa dos países mais desenvolvidos da Europa. Continuamos a  divergir deles em vez de conseguirmos a desejada convergência.

Precisamos, de facto, que toda a sociedade portuguesa se empenhe a sério para definir qual é o seu desígnio e se empenhe ainda mais  em comprometer nesse desígnio  todos os cidadãos portugueses. E nesse desígnio não podem constar apenas objectivos materiais económicos, mas também todos aqueles que são necessários para a completa satisfação das pessoas. Do número deles não podem ficar excluídas as dimensões humanas da  espiritualidade, da ética e da relação com Deus, para virmos a ser uma sociedade verdadeiramente equilibrada. Acresce ainda a necessidade de promover a máxima participação de todos, pessoas e instituições. Assim, precisamos de criar condições às famílias para elas poderem desempenhar a parte mais importante da sua missão que  é promover a vida e oferecerem à sociedade os cidadãos bem preparados que ela precisa. Precisamos de dar novo enquadramento  ás escolas para que saibam ocupar o seu espaço, dando cumprimento a projectos educativos que brotem realmente da sociedade civil e, em particular das famílias.

Sabemos todos que vivemos tempos de muita dificuldade, pois, se em outros países a crise está a passar, no nosso , parece que veio para ficar. É, por isso, natural que nos sejam pedidos sacrifícios. Ora, nós temos de reconhecer que a educação em geral praticada nas nossas escolas não prima por apresentar com realismos aos nossos jovens o lado difícil da vida e dos sacrifícios que vale a pena fazer para atingir metas de excelência. Todavia, julgamos possível continuar a pedir sacrifícios ao nosso povo desde que sejam bem explicados e também fique bem clara a distribuição equitativa dos mesmos.

 

Regressando ao quadro da Transfiguração, sentimos o convite à renovação para centrarmos a nossa vida cada vez mais na pessoa de Jesus Cristo e na Sua  Palavra Evangélica. É a partir desta renovação que também poderemos ajudar a sociedade portuguesa a encontrar os caminhos de equilíbrio e de verdadeira humanidade que lhe estão a faltar.

Do Senhor Jesus esperamos a resposta para a sede de bem e de valores que de facto existe na vida das pessoas. Por isso, para a próxima vamos centrar-nos em Cristo, Palavra e fonte de Vida, onde todos podem  matar a sede de viver.

+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda

publicado por dioceseguardacsociais às 09:39