Intervenção do Padre José manuel Martins na apresentação do livro "Quando for grande quero ser padre", no dia 17 de Dezembro, na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço

 

Quando for grande quero ser Padre

Seduzidos por Cristo. Testemunhas da sua ressurreição.

 

 

 

            Os meus alunos riam-se, considerando uma simples brincadeira ou uma manifestação precoce de loucura, sempre que lhes falava do sonho da minha vida: quando for grande quero ser padre. Quando se aproximava alguma ordenação sacerdotal, havia alguém que sempre me interpelava: “Senhor Padre, é desta vez que vai mesmo ser padre?” Eu, quase invariavelmente, respondia: “Ainda não. Não tenho pressa”.

            Devo confessar que essa minha loucura persiste, porque o sonho que está na sua origem continua a ser o sonho que anima a minha vida. E a loucura atingiu tal gravidade que me impeliu a partilhar este meu sonho, escrevendo um livro: “Quando for grande quero ser padre”. Dependo tanto deste sonho que, sem ele, não conseguiria viver, não poderia ser fiel a Deus e a minha vida seria estéril e inútil.

            Mas qual é a verdadeira origem deste sonho, esta consciência e convicção de não ser ainda, este desejo e aspiração de apenas vir a ser num futuro mais ou menos distante? Por outras palavras, como explicar que somente queira ser quando for grande aquilo que já deveria ser em cada dia, no hoje da minha vida e missão?

            Caminhando com Jesus, desde o seu Baptismo até à sua Ascensão, apoiado nos relatos evangélicos, ao ver como Jesus forma os apóstolos, a missão que lhes confia e o modo como quer que eles a vivam, descubro que ser padre segundo Jesus Cristo é muito mais e muito diferente do modo como eu sou e também do modelo de padre que a Igreja me propõe.

            Jesus quer que os apóstolos O acompanhem todo o tempo do seu ministério público, que estabeleçam com Ele uma relação pessoal, sejam ouvintes e testemunhas directas das suas palavras e obras, conheçam a sua vida íntima, descubram a sua verdadeira identidade (“E vós, quem dizeis que Eu sou?” – Mt 16,15), e O amem de verdade (“Tu és deveras meu amigo?” – Jo 21,17). Só quem O conhece e O ama assim – quem superou o exame da fé e do amor – estará verdadeiramente seduzido por Jesus e aceitará continuar a sua missão.

            Jesus quer que os apóstolos, tal como Ele, com a mesma radicalidade e a mesma entrega, proclamem o Evangelho, a Boa Nova da Salvação, o reino de Deus. O reino de Deus, que Jesus anuncia e põe em marcha, é o mundo novo que Deus sonhou para os homens, um mundo segundo a medida do seu amor por eles. Um mundo onde todos os homens, e não apenas alguns, possam viver com dignidade, realizar-se como pessoas e ser autenticamente felizes.

            Jesus quer que os apóstolos, com a ousadia e a frontalidade dos profetas, anunciem o reino de Deus como uma Boa Nova para os pobres e doentes, para os oprimidos e prisioneiros, para os excluídos e marginalizados da sociedade, para os que procuram o sentido da vida e para os homens pecadores; que, com a solicitude e a bondade dos pastores, o façam chegar à vida e ao coração de cada pessoa; e, como sacerdotes, perpetuem o mistério do amor de Deus, levado ao extremo na oferta que Jesus fez de si mesmo na cruz: um amor que vence o pecado e a morte, que redime e recria, liberta e salva o homem.

            Jesus quer que os apóstolos sejam, acima de tudo, testemunhas da sua ressurreição. “Sereis minhas testemunhas … até aos confins do mundo” (Act 1,8). Estas são as palavras que Jesus ressuscitado dirige aos apóstolos, imediatamente antes da sua Ascensão ao Céu. Pede-lhes que sejam testemunhas dele, o Senhor ressuscitado, precisamente Aquele que está a falar com eles.

             Os apóstolos compreenderam e assumiram isso como o essencial e específico da sua missão. Com efeito, quando se propuseram escolher o substituto de Judas, colocaram como condição que fosse alguém que pudesse tornar-se com eles testemunha da ressurreição de Jesus (Act 1,22).

            A ressurreição de Jesus, qual fundamento e garantia da ressurreição dos mortos e da vida eterna, constitui a Boa Nova que os apóstolos, com a força do seu testemunho, devem levar a todos os homens. Ao mesmo tempo, ela é a razão que, efectivamente, pode motivar e convencer os homens a acreditar em Jesus e a viver segundo o seu Evangelho.

            Sem a certeza de uma vida que se prolonga para além da morte, acreditar em Jesus faria de nós os mais miseráveis e dignos de compaixão de todos os homens (1Cor 15,19), como reconhece o apóstolo Paulo, ao escrever sobre este assunto aos coríntios. Sem a esperança firme na vida eterna, diz ainda o apóstolo, “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”, ou seja, parece de todo razoável seguir a lógica do comer e gozar a vida, do viver ao sabor dos instintos e das paixões.

             De facto, se os homens não acreditam nem esperam uma recompensa eterna, não será possível motivá-los a construir a sociedade humana segundo os valores do Reino de Deus, ou a viver segundo a moral do Evangelho, ou ainda a celebrar regularmente a fé em Cristo, sobretudo quando tudo isso exige renúncia ou sacrifício.

            Resulta evidente que ser testemunha de Cristo ressuscitado e testemunhar que acreditam na ressurreição dos mortos e na vida eterna é o principal dever dos apóstolos e, ao mesmo tempo, o melhor serviço que prestam aos homens.

            Ser testemunha de Jesus não se esgota, como é óbvio, no transmitir com exactidão os seus ensinamentos e no repetir com rigor o que lhes mandou fazer. Exige também – e isso não é menos importante para se poder falar de autêntica fidelidade – que os apóstolos se identifiquem com Cristo no modo como vivem e exercem a sua missão.

 

            Ser padre segundo Jesus Cristo é, no entanto, um modelo que, por uma questão de fidelidade ao próprio Cristo, deve ser adaptado e actualizado, tendo em conta os desafios dos novos tempos e dos diferentes ambientes culturais em que o ministério é exercido.

            Faz parte da missão da Igreja adaptar, em cada tempo, a proposta de Jesus, atendendo às circunstâncias históricas e culturais em que vive e deve cumprir a sua missão. Só assim, o ministério sacerdotal pode ser compreensível e eficaz no aqui e no agora de cada terra, de cada geração e de cada povo.

            Isto significa que, ao longo da história, são legítimos modos diferentes de viver e exercer o ministério sacerdotal, sem que se ponha em causa a fidelidade à missão de Jesus.

            Porém, neste processo podem correr-se alguns riscos. Por vezes, a “roupagem” humana desvirtua e não está em consonância com o “vestido novo” de Cristo. Outras vezes, os elementos humanos, compreensíveis e ajustados para um determinado tempo e cultura, adquirem o estatuto de definitivos e estendem-se a toda a Igreja. Noutros casos ainda, algumas leis humanas tornam-se mais determinantes e decisivas, na hora de reconhecer a vocação de alguém por parte da Igreja, do que os requisitos indicados por Cristo. Os critérios humanos podem sobrepor-se aos critérios divinos.

            Nestas circunstâncias, pode acontecer que alguns jovens, seduzidos por Cristo e dispostos a consagrar a sua vida ao serviço do reino de Deus, deixem de o fazer por considerarem ultrapassadas ou não se sentirem com forças para abraçar certas exigência eclesiásticas.

            E pode acontecer também, em sentido contrário, que outros jovens, mais do que por Cristo e pelo seu Evangelho, se sintam atraídos pelo que o modelo tem de humano, por aquilo que ele oferece em termos de uma carreira. Esses serão mais funcionários da Igreja do que servidores do reino de Deus. Servir-se-ão mais da Igreja para satisfazer a sua ambição pessoal e servirão menos como “simples e humildes trabalhadores na vinha do Senhor”.

            Estes perigos são reais e afectam negativamente a vida da Igreja. Tudo isto nos leva a supor que a Igreja estaria melhor quanto aos sacerdotes, se estes fossem menos dos que são e muitos dos que não puderam ser.

 

            É inegável o esforço de renovação que a Igreja tem feito, sobretudo com e a partir do Concílio Vaticano II, centrando-se sempre mais na Palavra de Deus.

No entanto, apesar das mudanças operadas, sobrevivem elementos e influências que ainda desvirtuam uma justa visão do sacerdócio e do ministério sacerdotal.

Antes de mais, faz-se ainda sentir uma excessiva influência do sacerdócio do Antigo Testamento, que era um sacerdócio exclusivamente cultual. Em segundo lugar, sobrevivem muitos elementos da visão do sacerdote correspondente à organização da Igreja segundo o modelo do império romano. Neste modelo, o sacerdote tem muito de funcionário, ao serviço das estruturas da Igreja. E o sacerdócio é visto numa linha de poder, de títulos, dignidades e privilégios.

Depois, temos o modelo que surge com o Concílio de Trento (sec. XVI), em que os sacerdotes são mais defensores da doutrina e das leis da Igreja do que profetas e evangelizadores; estão mais ligados ao culto e aos templos do que presentes e intervenientes na vida da sociedade.

Este modo de ser e de agir ainda está presente na Igreja dos nossos dias. No entanto, também é verdade que, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, a Igreja multiplicou e diversificou as suas actividades e acções pastorais, no afã de se tornar mais presente no mundo e iluminar todos os aspectos da vida do homem (a nível pessoal, familiar e social). Porém, continuando a prevalecer uma mentalidade clerical (os sacerdotes continuam a fazer muitas coisas que são da competência dos leigos) e, além disso, dando-se um abandono massivo de sacerdotes e uma diminuição acentuada das vocações, os padres viram-se envolvidos num autêntico frenesim pastoral. Este não só foi e é desgastante para os sacerdotes como se revela, quase sempre, estéril, ou seja, com um êxito aparente e efémero. Este activismo pastoral gerou e gera muitos padres stressados e desiludidos. Ora, padres que se cansam a trabalhar ou apenas cansados pelo desencanto em que vivem acabam por não ser autênticas testemunhas da transcendência e do amor de Deus. São, normalmente, padres sem alegria e sem esperança.

 

Como explicar todo este afastamento da proposta de Jesus e que a própria Igreja defenda e proponha um modelo tão diferente? O modo como a Igreja se vê e a consciência que tem da sua missão no mundo determinam o tipo de sacerdote que ela procura e forma.

 É verdade que o Concílio Vaticano II propõe e evidencia uma nova visão da Igreja, a chamada eclesiologia de comunhão. Esta, como é lógico, exige necessariamente uma nova visão do sacerdote. Ora acontece que, muito embora a Igreja defenda, teoricamente, uma nova eclesiologia, ela continua a ser, prevalentemente, segundo o modelo antigo e continua a querer e a formar padres que sirvam esse modelo de Igreja.

 A igreja defende e apresenta, teoricamente, uma nova visão e compreensão de si e da sua missão, mas falta-lhe a ousadia de se repensar à luz da Palavra de Deus, segundo a radicalidade do Evangelho de Jesus.

A Igreja ainda está demasiado presa ao modelo antigo. Muitos, sobretudo os que mais mandam, sabem que as vantagens e os privilégios humanos que gozam dentro da Igreja só podem sobreviver dentro desse modelo. Por isso mesmo o defendem, e apenas vão permitindo ou promovendo mudanças que se situam mais na linha da pastoral do remendo novo para salvar o vestido velho (o modelo antigo) do que na linha dos odres novos para vinho novo (Mc 2,21-22).

Uma Igreja repensada à luz da Palavra de Deus, será uma Igreja que se pensa e organiza menos em função de si mesma e mais na linha de serviço ao reino de Deus. Essa será uma Igreja com menos poder e exercerá o poder que lhe é próprio sem ostentação nem vaidade, mas com simplicidade e autêntico espírito de serviço. Será uma Igreja com menos culto e mais evangelizadora; com menos dogmas e certezas e mais fé e tolerância; uma Igreja menos moralista e mais humana; com menos títulos e dignidades e mais acessível e fraterna; será menos massa e mais fermento; terá menos visibilidade mas irradiará mais luz no mundo; uma Igreja menos romana e mais católica, menos eclesiástica e mais apostólica; e, acima de tudo, será uma Igreja mais fiel a Cristo.

Uma Igreja assim aceitará e formará padres segundo o coração de Deus: homens verdadeiramente seduzidos e apaixonados por Cristo, testemunhas credíveis e alegres da sua ressurreição, servidores humildes e dedicados do Reino.

 

Ser padre segundo o coração de Deus implica, como dissemos antes, que o padre continue a missão de Cristo e se identifique com Ele no modo como vive e exerce o seu ministério. Assim, o padre, tal como Jesus, deve viver como um cidadão comum entre o comum dos cidadãos do meio em que vive e realiza a sua missão. Mas, ao mesmo tempo, ele deve fazer aí toda a diferença, pelo testemunho de fé que dá.

Nessa linha, o sacerdote deve evitar uma dupla tentação. Por um lado, querer ser ainda demasiado diferente das pessoas no que deve ser igual a elas, ou seja, exigir ou aceitar tratamento especial ou vantagens humanas em nome ou a pretexto do que é. E, por outro, tornar-se demasiado igual no que deve ser diferente, seguindo o princípio, muito divulgado, de que o padre é um homem como outro qualquer. Ora, o padre é um homem como os outros enquanto não tem mais direitos do que eles. Mas ele não é um homem como outro qualquer no sentido que tem mais deveres e é legítimo esperar mais dele.

            Concretizemos:

             O sacerdote deve anunciar Cristo ressuscitado aos homens e mostrar-lhes que acredita na ressurreição dos mortos e na vida eterna. Isso exige que sua fé se torne visível no modo como vive e realiza a sua missão sacerdotal: a humildade e o espírito de serviço com que exerce o ministério; o desprendimento em relação aos bens materiais e a liberdade com que usa o que possui; o amor e a alegria com que abraça a cruz de cada dia; a coragem com que enfrenta os desafios da missão, a esperança com que olha o futuro, a serenidade com que fala da morte e o entusiasmo com que fala do Céu.

            O sacerdote deve falar de Deus    e celebrar o culto com frequência e dignidade. Mas é necessário que deixe transparecer no quotidiano da sua vida que o Deus, em quem acredita e ao qual presta culto, faz dele um homem verdadeiramente feliz.

            O sacerdote deve pregar a moral do Evangelho e propor às pessoas que a assumam como um projecto de vida. Mas é necessário que, pelo seu agir, mostre que é possível e compensa seguir essa moral, e que só a Lei de Cristo torna o homem plenamente livre.

 

 

            Padres segundo o coração de Deus, eis o modelo que deve ser proposto aos jovens de todos os tempos! Só Jesus, conhecido na verdade do que é e da sua missão, do que propõe e pede, pode entusiasmar os jovens e motivá-los a segui-lo.

            Padres segundo Jesus Cristo, eis os padres que devemos pedir a Deus, pois são precisamente esses e só esses que Ele nos quer dar.

            Entre muitas outras causas que explicam a diminuição das vocações e das ordenações sacerdotais, considero como a mais determinante o facto de se continuar a propor um modelo de padre manifestamente ultrapassado e falido, que corresponde a um modelo de Igreja igualmente ultrapassado e que não corresponde ao sonho de Cristo, como dissemos anteriormente.

            Alguns poderão contra-argumentar, apontando o aumento significativo de vocações e ordenações em África e na Ásia. O papa Bento XVI, no seu livro/entrevista Luz do Mundo salienta que a Igreja nunca teve tantas vocações e sacerdotes como hoje. Porém, a realidade já está a desmentir essa ilusão. Algumas dioceses, que nas últimas décadas tiveram essa primavera de vocações, já estão a sentir a crise, à medida que se altera a situação económica, social e cultural das mesmas.

            Por sua vez, a falta de eficácia da nossa oração pelas vocações também se prende com esta mesma razão. O problema não está tanto em rezarmos pouco, mas no tipo de padres que pedimos a Deus e nas motivações que ainda nos levam a pedir esses mesmos padres.

            Chego a pensar que Deus está “cansado” de ouvir a nossa oração e que Ele não nos atende, dando-nos os sacerdotes que o mundo precisa e Ele realmente nos quer dar, porque não são esses que lhe pedimos e estamos dispostos a aceitar. Chegou a hora de não sermos nós a impor a Deus o modelo de padres que queremos. Pelo contrário, é tempo de pedir e aceitar os padres que Deus nos quer dar, padres segundo o seu coração.

 

            “Quando for grande quero ser padre”. Este não é, como o título poderia sugerir, um livro de pastoral vocacional. Também não fala daquele meu sonho de criança que realizei com a minha ordenação sacerdotal.

            Neste pequeno livro partilho reflexões e meditações que fiz sobre a vocação e missão do sacerdote, a sua identificação com Cristo e o ser padre segundo o coração de Deus. Nelas aprofundo e questiono, de um modo suave e sem tensões, o meu ser padre e também o ser padre na Igreja.

             Por outras palavras, neste livro partilho o sonho de ser padre segundo Jesus Cristo, o sonho que anima o hoje da minha vida sacerdotal. Este é, em si mesmo, um sonho inacabado, um sonho para toda a vida. Na verdade, há sempre um mais no mistério da vida e da missão de Jesus que nos ultrapassa e para o qual devemos tender sem cessar. Há sempre um mais, algo de novo e surpreendente no convite de Jesus: “vinde e vereis” (Jo 1,39); há sempre um mais, algo de novo e fascinante no seu desafio: “faz-te ao largo” (Lc 5,4). É este mais que me impele a lançar as mãos ao arado e olhar sempre em frente (Lc 9,62), a acreditar no futuro e a ser homem de esperança.

            Como todos os sonhos, também este meu sonho de ser padre comporta uma acentuada dose de loucura. E mau sinal será para mim que os leitores não encontrem sinais dela neste livro. O sonho, a liberdade e a loucura são realidades indissociáveis. O sonho potencializa a nossa liberdade e o exercício desta liberdade é visto como loucura por aqueles que não conhecem a liberdade de sonhar.

            Eu chego a pensar que esta loucura é um dom de Deus. E porque sinto a grandeza que me dá, o que mais temo é que, por minha culpa, a possa perder. Sim, se perder esta loucura, é sinal que morreu o meu sonho e, com ele, perdi a minha liberdade.

publicado por dioceseguardacsociais às 10:37