Natal de esperança em tempos de crise

 

 

Vamos celebrar o Natal de 2010, em tempos marcados pela crise, sem fim à vista, e que está a fazer sofrer muitas pessoas.

Não temos a pretensão de identificar todas as causas desta crise, mas não podemos deixar de lembrar as mais visíveis e que estão a pedir mudanças de comportamento corajosas. Entre essas, estão os jogos de interesse que continuam a fazer-se nas costas do povo, envolvendo sobretudo decisões políticas, económicas e financeiras. Estão também as atitudes egoístas de muitos que só procuram defender os seus interesses e do seu grupo, sem respeito pelo bem comum e pelos direitos de todos. Igualmente temos de denunciar a falsidade do princípio, para muitos indiscutível, de que o bem-estar das pessoas coincide com o elevado consumo de bens materiais. Há ainda muita falta de sentido de responsabilidade relativamente ao uso dos recursos materiais que se têm e mesmo que se não têm, o que está a provocar níveis desastrosos de endividamento das pessoas, das famílias e mesmo do país. Acrescem a estas os baixos níveis de educação para a cidadania que nós temos e o facto de as iniciativas de participação no desenvolvimento pelo trabalho não serem elevadas. Lembremos que as nossas escolas ainda conseguem transmitir alguns bons níveis de informação, mas quando se trata de ajudar os alunos a elaborar boas decisões e levarem-nas à prática, com eficácia, revelam muita dificuldade. Por sua vez, o facto de sermos o país da Europa em que a percentagem de jovens licenciados à procura de emprego é das mais elevadas, se não mesmo a mais elevada, não nos ajuda.

E continua a ser verdade que o factor mais decisivo para o desenvolvimento das sociedades são as pessoas, pessoas bem preparadas e com carácter, capazes de estabelecerem objectivos bem definidos e procurarem os meios indispensáveis para os atingir, incluindo a capacidade de sacrifício.

Preocupa-nos que seja alto e em crescendo o número de pessoas que estão fora do trabalho. Isto porque o trabalho, mais do que um meio de produção material, é o lugar por excelência da realização de cada pessoa e da sua integração na vida da sociedade.

Temos conhecimento do grande número de pessoas que passam necessidade e não têm os bens considerados essenciais.

De olhos postos no Presépio de Belém e no Menino Jesus, rosto visível de Deus que, sendo rico, Se fez pobre para nos ajudar a combater todas as formas de pobreza, queremos estar ao lado dessas pessoas.

E sentimos que hoje há novas formas de pobreza e também novos pobres, devido às mudanças rápidas da situação social introduzidas pela crise que continua a afectar-nos e de que maneira.

Para pormos em prática as lições do Presépio, queremos, neste Natal, como cristãos e discípulos do Menino de Belém:

Procurar conhecer melhor a situação real das pessoas que precisam, sobretudo através da relação de proximidade com elas;

Que, em cada Paróquia e em cada povoação ou bairro, haja grupos paroquiais de acção social, para exercerem a prática da proximidade e da caridade;

Conhecer e identificar bem as situações de pobreza mais gritantes, nos nossos meios, para, umas vezes, directamente, outras vezes recorrendo a instituições, como é o caso do Fundo Social Solidário recentemente criado pela Conferência Episcopal, lhes podermos dar resposta pronta;

Queremos, finalmente, marcar a nossa atenção de caridade para com os outros, partilhando do muito ou pouco que temos com os que mais precisam.

Por isso, lembro o pedido que foi dirigido oportunamente aos cristãos portugueses pelo Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social para que doassem, com esta finalidade, 20% do seu vencimento mensal. Este apelo desejo também fazê-lo, neste Natal, aos membros do clero e aos leigos da nossa Diocese e aponto como destino desta entrega a nossa Caritas Diocesana ou o Fundo Social Solidário promovido pela Conferência Episcopal.

Que a luz de Cristo, presente no Coração do Natal, nos ilumine naquelas decisões e naqueles gestos que podem contribuir para encontrar os novos caminhos capazes de dar novos rumos à Sociedade actual e ajudar a superar a crise global que persiste e continua a fazer sofrer muita gente.

 

Guarda, 15 de Dezembro de 2010

 

+ Manuel Felício, Bispo da Guarda

publicado por dioceseguardacsociais às 17:41