1. Estamos em Fátima, nesta Igreja da Santíssima Trindade, vindos de muitos lugares, alguns em grupos de peregrinação como acontece com a Diocese da Guarda que faz a sua peregrinação anual a este santuário; mas outros em peregrinação de família ou mesmo individual. Alguns terão mesmo escolhido este dia para passarem um dia das suas férias em Fátima.. Nossa Senhora a todos deseja acolher em seu coração de mãe, a todos deseja ajudar no caminho para Jesus Cristo, no aprofundamento da sua Fé, porventura na superação de qualquer dificuldade maior que alguém de nós traz consigo e deseja aqui encontrar ajuda necessária para a superar. É com sentimentos de profunda esperança e de muita confiança que todos queremos viver esta peregrinação ao Santuário de Fátima e em particular esta Celebração Eucarística na Igreja da Santíssima Trindade.
  2. Hoje o calendário litúrgico propõe-nos  fazer memória da figura de S. Bernardo como exemplo para a vivência e o aprofundamento da nossa Fé em caminhada pessoal e comunitária. S. Bernardo, monge cisterciense eleito abade de Claraval ainda jovem, foi um apaixonado pelo amor de Deus revelado em Jesus e tornado ainda mais acessível para todos nós na figura de Maria Santíssima. A sua vida, o seu exemplo, os numerosos escritos que nos deixou sobre a vida espiritual e os percursos de vida de Fé continuam hoje a ser ajuda preciosa para nós que desejamos conhecer mais e melhor e sobretudo experimentar o amor de Deus revelado em Jesus Cristo.
  3. A Palavra de Deus fala-nos hoje de fidelidade. Fidelidade aos nossos compromissos, mesmo quando isso implica sacrifícios que podem chegar ao dom da própria vida. A primeira leitura, referindo costumes primitivos que em si mesmos estão ultrapassados, como é o caso de sacrifícios humanos, sublinha a nobreza da fidelidade a compromissos assumidos, mesmo quando essa fidelidade pede renúncias e sacrifícios. O Evangelho diz-nos que a fidelidade correctamente entendida nos leva a escolher na vida sempre e em primeiro lugar o que é mais importante; e nos leva a subordinar sempre o que é menos importante ao que é mais importante. Se fizermos de outra maneira, estamos a contribuir para a subversão dos valores, para a nossa infelicidade pessoal e para a desordem social. O Evangelho de hoje fala-nos na recusa do valor mais alto que é o Banquete do Reino, em nome de interesses temporais e materiais como é o campo e o negócio ou pura e simplesmente o facto de as pessoas nem sequer quererem ser incomodadas nas suas consciências com a recordação dos valores mais altos.
  4. A história repete-se de facto; e hoje como ontem o valor da fidelidade continua a ser fundamental na vida das pessoas e das comunidades. Sentimos, por outro lado, que a conjuntura actual das nossas sociedades, a começar pela cultura dominante não ajuda a formação e a prática da fidelidade. Com frequência considera-se normal o dar o dito por não dito. E, mesmo quando decisões importantes tomadas implicam direitos de terceiros, considera-se normal, em nome da autonomia pessoal e da liberdade, que as pessoas voltem atrás nos compromissos tomados. Mais ainda considera-se na cultura dominante, quase crime e um atentado contra a liberdade que as pessoas tomem na sua vida decisões definitivas que comprometam a sua vida para sempre. Parece haver mesmo uma incapacidade inultrapassável para reconhecer que quem toma decisões e permanece fiel a elas é mais livre do que aqueles que, em nome da liberdade, dão o dito por não dito. No mínimo temos de considerar esta atitude da nossa cultura dominante uma grande pobreza que também empobrece a vida dos cidadãos que estamos a preparar para a vida.
  5. Falamos de fidelidade num ano sacerdotal que por vontade do Papa Bento XVI estamos a celebrar até Junho do próximo ano, comemorando os cento e cinquenta anos passados sobre a morte do Santo Cura d’Ars. Para vivermos com intensidade este ano sacerdotal, o Santo Padre faz principalmente três apelos. O primeiro é dirigido a nós sacerdotes. E pede-nos que aproveitemos este ano principalmente para aprofundarmos a nossa fidelidade ao dom recebido. Esse dom recebido é o da nossa vocação que pelo Sacramento da Ordem se transforma em mandato do Senhor para serviço incondicional de Igreja e por ela da própria sociedade. O modelo do nosso exame de Consciência como sacerdotes quanto à fidelidade ao dom recebido é a própria fidelidade de Cristo à vontade do Pai que ele cumpriu até ao fim, com a morte na cruz. O segundo apelo é dirigido a toda a Igreja, a todo Povo de Deus para que reforce a sua Fé neste grande mistério que é o Sacerdócio ministerial. Juntamente pede-se a todos os fiéis oração intensa pela santificação dos nossos sacerdotes. Temos a certeza de que a vitalidade da Igreja continuará a depender em larga escala principalmente da santidade dos seus sacerdotes e não apenas do número deles. O terceiro apelo é dirigido também a todo o Povo de Deus para que fortaleça a sua preocupação pela pastoral das vocações sacerdotais. Vivemos hoje tempos diferentes daqueles que foram vividos algumas décadas atrás no que respeita ao recrutamento das vocações sacerdotais. Há três ou quatro décadas os nossos Seminários menores enchiam-se com alguma espontaneidade embora ao Seminário Maior e depois à Ordenação Sacerdotal chegasse uma percentagem progressivamente mais reduzida relativamente aos que iniciavam o seu percurso no Seminário Menor. Hoje os lugares para fazer despertar e acompanhar as vocações sacerdotais são variados. Continua a ser, em muitos casos o Seminário Menor, durante as idades mais tenras da adolescência; mas é também o Pré-Seminário ou Seminário em Família; são as escolas do Ensino Básico e Secundário e mesmo Universitário; são as famílias, as paróquias e também o mundo do trabalho e do emprego. Na medida em que progredimos no esforço por fazer das nossas paróquias escolas de Fé e de Oração, das nossas famílias verdadeiras Igrejas domésticas, das nossas catequeses e outros espaços de formação caminhos para o encontro vivo e vital com Cristo, estamos a criar as condições para a autêntica pastoral das vocações sacerdotais. Isso não dispensa a oração explícita para que o Senhor mande à sua Igreja os sacerdotes que ele precisa, como não dispensa o convite directo àqueles que vemos com capacidade para desempenhar este importante e decisivo serviço na vida da Igreja. Que nossa Senhora proteja com o seu amor de Mãe os nossos Sacerdotes; ajude todo o Povo de Deus a estimar os seus sacerdotes e a colaborar com eles principalmente através dos ministérios laicais que o Espírito Santo continua a suscitar nas nossas comunidades; e a todos nos ajude no esforço de criar as condições para que mais vocações sacerdotais sejam despertadas e devidamente acompanhadas nos nossos Seminários.

             20 de Agosto de 2009

            + Manuel R. Felício, Bispo da Guarda

 

 

publicado por dioceseguardacsociais às 09:52