A oração: encontro com Deus Pai e força humanizadora das pessoas e da Sociedade

 

1.Celebramos o 4º Domingo da Quaresma, também chamado o domingo da alegria, porque nele antecipamos as alegrias pascais da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo Estamos a meio da Quaresma, esta caminhada pessoal e comunitária para a renovação das nossas vidas, segundo identidade de baptizados, que nos configura com a Pessoa de Cristo morto e Ressuscitado. N’Ele está inaugurada a Humanidade Nova, à qual nos sentimos chamados e a Quaresma é tempo especialmente favorável para darmos cumprimento a esta nossa vocação. A Páscoa que se avizinha é celebração do triunfo de Cristo sobre a morte e princípio de vida nova; mas também é o tempo oportuno parta que celebrem o Baptismo aqueles que para ele se estão a preparar ou renovem as promessas do seu Baptismo aqueles que já estão baptizados. A razão é que o nosso Baptismo é entrada na Páscoa de Cristo, de modo a com Ele ficarmos configurados na Sua Morte e na Sua Ressurreição. Por isso sobretudo este tempo central da Quaresma é aquele em que os catecúmenos, ou seja os que se preparam para serem baptizados na Noite Pascal, intensificam a sua preparação e dar provas de que estão capazes de assumir as responsabilidades cristãs. Por outro lado, aqueles que já fomos baptizados temos agora a oportunidade de rever e aprofundar os nossos compromissos cristãos para, com verdade, podermos renovar a profissão de Fé também na Noite Pascal.

 

2.A Palavra de Deus acompanha-nos e ajuda-nos nesta caminhada de preparação para a Festa da Páscoa, em que renovamos as promessas do nosso Baptismo. E hoje coloca-nos diante da Bondade e da Misericórdia de Deus Pai, que ultrapassa todos os limites do razoável e todas as expectativas. A Parábola do Filho Pródigo, que hoje lemos no Evangelho, é a peça do Novo Testamento que mais retrata ao vivo o amor de Deus Pai, que não se deixa vencer mesmo pelos mais impensáveis desmandos de qualquer dos Seus Filhos. O Filho mais novo pediu a herança do pai, o que implicava para a cultura da época o implícito desejo de que ele morresse. Esbanjou toda a herança e ficou na miséria. Caiu em si mesmo, arrependeu-se e iniciou o caminho de regresso à Casa do pai, essa recordação ou nostalgia que, no fundo, nunca o abandonou. É recebido pelo Pai, que vai ao seu encontro de braços abertos e resolve fazer uma grande festa, porque o seu filho “estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado”. É difícil de entender este excesso de amor, de bondade e de perdão que sai do coração de Deus Pai, E o Filho mais novo, segundo o que diz a Parábola, também não entendeu. Em gestos surpreendentes como este da Parábola do Filho Pródigo nós vemos o perfeito cumprimento da aliança: aliança de que nos fala também a primeira leitura de hoje tirada do Livro de Josué, ao descrever a primeira festa da Páscoa, na Terra Prometida. O Povo, depois de 40 anos passados pelos caminhos do deserto, à Terra Prometida e celebrou a Páscoa. Nós também depois de 40 dias intensamente vividos em espírito de conversão e em caminhada ao encontro do Senhor queremos celebrar a Páscoa, a Páscoa da nova e definitiva Aliança selada em Cristo morto e Ressuscitado. Diz S. Paulo na II Carta aos Coríntios, que hoje também lemos: “Se alguém está em Cristo é uma nova criatura”. Isto é verdade, porque as coisas antigas passaram e tudo foi renovado, com a Sua Morte e Ressurreição. Nós queremos aproveitar a recta final da Quaresma para entrarmos de verdade pelos caminhos da renovação que nos é oferecida na Pessoa de Jesus Cristo morto e Ressuscitado. Para isso queremos acolher de novo em nossas vidas o perdão que os vem de Deus através do Jesus Cristo e é celebrado principalmente no Sacramento da Reconciliação. Se queremos viver com seriedade a Páscoa que se aproxima não podemos deixar de responder com coragem ao pedido que S. Paulo nos faz hoje, nestes dermos. “Nós vos pedimos, em nome de Cristo, reconciliai-vos com Deus”.

 

3.O Mundo precisa de voltar a experimentar de novo a Paternidade de Deus e com ela a importância que tem para a felicidade das pessoas a paternidade humana. De facto, sentimos que o enfraquecimento das relações familiares e em particular da presença da figura do pai na estruturação da personalidade de cada ser humano não é coisa benéfica. As figuras e as funções complementares do pai e da mãe, quando não existem ou por qualquer motivo se anulam, fazem muita falta, qualquer delas, mas também a sua complementaridade, em todo o processo de desenvolvimento da pessoa, principalmente na sua primeira fase. Por isso, sentimos que a experiência cristã da relação com Deus Pai, Pai de amor, de bondade, de misericórdia, como hoje nos é apresentado na Parábola do Filho Pródigo, tem um importante contributo a dar para a humanização das pessoas e da sociedade em geral. A Parábola do Filho Pródigo remete-nos para a oração do Pai Nosso que todos os dias nós rezamos. Ao chamarmos a Deus pai, tocamos, por um lado, o desejo profundo de todos os homens e mulheres, que é viverem o amor para que foram chamados na relação de paternidade e filiação. Sentimos, por outro lado, a triste imagem que muitos pais terrenos tantas vezes dão de si e da sua missão que lhes está confiada. Também a imagem distorcida de Deus que a cultura em geral e as diferentes práticas, incluindo às vezes a prática cristã, dão de Deus não ajuda. Para compreendermos o verdadeiro e profundo sentido do Pai Nosso e da experiência de relação com Deus Pai que caracteriza a nossa Fé e é profundo desejo de todo o ser humano temos de procurar descobrir o verdadeiro rosto de Deus através da revelação que d’Ele nos faz a Pessoa de Seu Filho Nosso senhor Jesus Cristo. Na pessoa e nos ensinamentos de Jesus Cristo descobrimos como Seus Pai é a fonte de todo o Bem, como Ele é o critério e a medida de todo o Homem recto. Por sua vez, enquanto chamados à filiação divina na Pessoa de Cristo, sentimos que a Pessoa de Deus Pai abre novos horizontes à realização da nossa humanidade. Na relação com Deus Pai e ao vivermos a condição de Filhos de Deus, sentimos que a nossa humanidade se plenifica, vencendo barreiras e limitações de tempo, de espaço e mesmo de capacidades. Sentimos, principalmente que, por este caminho, contribuímos para dar cumprimento à vocação comum a todos os seres humanos, vocação à unidade e à constituição de uma única família, onde todos participem da mesa comum posta para todos pelo único pai e Senhor do Mundo. Esta vocação à unidade de todos os seres humanos, de facto chamados a constituírem uma única família, não se cumpre espontaneamente. Há, de facto, forças que actuam em sentido contrário, como são as forças do egoísmo e da competição desenfreada, incluindo a luta pelo poder a todo o custo. Por isso também para nós cristãos rezar o Pai Nosso é colocarmo-nos numa atitude de conversão, conversão à relação filial com Deus Pai e à relação de fraternidade com todos os outros seres humanos. Quando, ao rezar, dizemos “Pai Nosso que estais nos céus”, não queremos afirmar que Deus Pai está longe ou fora das nossas preocupações quotidianas. Queremos dizer, sim, que toda a nossa vida, os nosso projectos e afazeres pessoais e comunitários ganham sentido verdadeiramente humano e humanizante a partir de um horizonte novo, o horizonte de Deus, princípio, fim e razão da subsistência de tudo quanto existe, incluindo a sociedade organizada que nos enquadra. Todos os projectos humanos recebem o seu verdadeiro sentido e valor a partir da meta para onde se dirige a própria sociedade; e essa meta é o reino de Deus. É por isso que a oração do Pai Nosso, longe de nos encerrar no espaço limitado dos que explicitamente professam a Fé, nos abre às dimensões da humanidade. E sentimos que isto é verdade, a partir do amor de deus Pai, que, de facto não tem fronteiras. Por isso, nós baptizados não podemos, em boa verdade, rezar o pai Nosso, sem levarmos junto d’Ele todos aqueles por quem Ele entregou o Seu Filho muito amado. Sendo assim, rezar o pai Nosso é rezar também por todos aqueles que ainda O não conhecem ou n’Ele não crêem. Sendo a oração ensinada aos seus discípulos pelo próprio Jesus Cristo, o Pai Nosso é afirmação da nossa identidade de Filhos de Deus e irmãos no mesmo Jesus Cristo. Esta é também a oração da Igreja por Excelência e, ela aparece em todos os momentos celebrativos de maior significado, como a Eucaristia e a Liturgia das Horas. Por último, sublinhamos a força humanizadora desta oração que saiu dos lábios do próprio Cristo. De facto para cada homem e cada mulher a experiência da relação filial e paternal, no quadro de uma família de relações estáveis, tem importância decisiva. E mesmo quando a família se desestrutura ou a experiência de relação filial e paternal não é reconfortante, fica sempre essa necessidade. A relação filial com Deus Pai é sempre o cumprimento desta aspiração incontornável do coração humano. Por sua vez a relação humana de filiação e paternidade encontra a sua genuína fonte de inspiração, de correcção e de progressivo aperfeiçoamento na própria paternidade de Deus. Por tudo isto vemos que pretender promover o desenvolvimento de uma personalidade ou mesmo da própria organização social, prescindindo da relação estruturante de filiação e paternidade é prejudicar gravemente as pessoas e põe a sua realização enquanto pessoas. Por sua vez desfazer o que é próprio desta relação identificá-la com outra forma de relações, como é a relação maternal, continuará a agredir as pessoas, sobretudo na sua fase de crescimento. Desejamos que esta Quaresma e esta Páscoa possam ajudar-nos a redescobrir na Paternidade divina, que a Parábola do Filho Pródigo hoje nos descreve em suas dimensões mais desconcertantes, a fonte inspiradora de toda a paternidade que existe neste mundo e sem a qual o seu pessoa não se pode cumprir.

 

Guarda, Igreja de S. Vicente,

Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda

publicado por dioceseguardacsociais às 17:44