2ª Catequese Quaresmal de D. Manuel Felício, Bispo da Guarda

 

A oração faz-nos discípulos missionários

 

1. Vivemos hoje o segundo domingo da Quaresma, com o quadro da transfiguração de Jesus, no Monte Tabor, perante Pedro, Tiago e João, e entre Moisés e Elias. Ao contemplarmos a Transfiguração de Jesus, somos também convidados a pensar na nossa própria transfiguração ou renovação pessoal e das nossas comunidades da Fé, para serviço do mundo onde nos encontramos, o qual em muitas das suas dimensões também precisa de se renovar. Nós queremos viver este domingo e esta segunda semana da Quaresma no empenho pela nossa renovação, pela renovação do mundo e da Igreja que o deseja servir, por vontade de Cristo. Sentimos que a oração, sendo encontro vivo e pessoal com Deus em Cristo Ressuscitado é a fonte e o lugar desta múltipla renovação.

 

2. O apelo de Deus à renovação, que também se chama conversão, vem hoje na Palavra de Deus, acompanhado da oferta de uma aliança à Pessoa de Abraão e sua descendência. Sabemos que a aliança com Deus percorre toda a vida do Povo de Deus do Antigo Testamento. Prometida, no início, aos primeiros pais, teve sucessivas concretizações e reajustamentos, desde Noé até Moisés, passando pela figura de Abraão de que nos fala hoje o livro do Génesis que acabámos de escutar. Na pessoa de Jesus Cristo foi selada uma nova e definitiva aliança entre Deus e os homens e mulheres de todos os tempos. Esta Nova Aliança traz consigo um novo estatuto de vida para todos os que aceitam entrar nela. E desse novo estatuto de vida fala-nos hoje S. Paulo, quando estabelece o contraste entre os que vivem ao sabor dos critérios e das inclinações do mundo e aqueles que decidem viver da esperança na pessoa de Cristo Ressuscitado. Nós queremos ser daqueles que vivem da esperança em Cristo Ressuscitado. O Evangelho fala-nos hoje da identidade e da missão de Cristo. A nota fundamental da identidade da pessoa de Jesus é ser o Filho único de Deus e como tal Senhor de toda a criação e acima dela. Intimamente ligada a esta sua identidade está a missão de salvar a humanidade, que Deus Pai lhe confiou, uma missão ligada ao caminho humanamente chocante do abaixamento até à morte e morte de cruz. Registe-se que este era o tema da conversa entre Moisés e Elias, durante a cena da Transfiguração. E foi o caminho da cruz voluntariamente abraçado por Cristo para cumprir esta Sua missão que os discípulos não entenderam. Ora , é esta contradição que o Evangelho hoje nos recorda e nos propõe também a nós como caminho para aprofundarmos a nossa identidade de filhos de Deus, discípulos de Cristo, com a missão de levarmos a Sua Boa Nova à vida das pessoas vivida nas variadíssimas situações do mundo e das sociedades de hoje.

 

3. A nossa identidade é, por isso, sermos discípulos de Cristo e n´Ele filhos de Deus. Daqui brota para todos e cada um de nós a missão de vivermos e darmos a conhecer a novidade de Deus e o que Ele representa para toda a Humanidade chamada a ser uma única família. Por força desta nossa missão, temos a responsabilidade de trabalhar para que toda a sociedade se aproxime o mais possível deste ideal de família para que se encontra vocacionada. Essa é também a responsabilidade da Igreja e de cada uma das sua comunidades de Fé, as quais têm como primeira obrigação renovarem-se a si mesmas, segundo o espírito do Evangelho. Esta renovação segundo o espírito do Evangelho significa caminharmos para comunidades que vivem intensamente o ideal da relação viva com Deus; comunidades que são verdadeiras escolas de Fé; comunidades que vivem segundo o imperativo da lei da caridade e procuram que a mesma caridade seja o princípio regulador da vida e das relações entre todos os cidadãos. Por outro lado, temos consciência de que a Igreja renovada segundo o Evangelho de Cristo não existe por causa de si mesma, mas sim para testemunhar no mundo a novidade do mesmo Evangelho. Por isso, como cristãos e comunidades cristãs estamos empenhados em contribuir para a renovação da nossa sociedade. E quando pensamos numa sociedade renovada vemo-nos diante de modelos de sociedade onde todos participam, onde todos contribuem para o Bem Comum e se sentem respeitados e ajudados a cumprir a sua autêntica vocação humana de cidadãos, em diálogo e franca cooperação com outros cidadãos. Por força do Evangelho de Cristo, queremos também trabalhar para que, na nossa vida social, todos possam intervir activamente nas decisões que devem ser tomadas. Queremos continuar a criar formas de proximidade com todos e cada um dos cidadãos, desfazendo assim todas as formas de exclusão. E neste ano europeu de luta contra a pobreza e a exclusão social sentimos que há formas novas e complicadas de exclusão, que não se podem desfazer só com leis ou mesmo só com novos apoios materiais que o governo possa decidir. É preciso apostar em práticas de proximidade e fazer a partir daí a motivação das pessoas para que, por si mesmas possam colaborar activamente na superação de situações de marginalidade e exclusão. Estamos convencidos de que os pobres têm de ser os primeiros agentes da luta contra a pobreza e os excluídos também os primeiros a quererem retomar os caminhos da inclusão. Para isso são precisas ajudas materiais, isso é verdade, mas também e muitas vezes principalmente ajudas que motivem as pessoas a usarem todas as suas capacidades para superarem situações indesejáveis. Isto supõe atitudes e mesmo programas de ajuda que passam principalmente pela formação das pessoas e sua motivação para entrarem por caminhos de participação na vida das comunidades. Há hoje claramente o risco de as pessoas se instalarem na própria dependência e fazerem da marginalidade o seu modo de vida, o que seria mau em primeiro lugar para elas mesmas e depois para a sociedade. E falando em participação das pessoas na vida das comunidades, sabemos que ela se faz, nas sociedades modernas, principalmente através de representantes eleitos. Estes ficam com a obrigação formal de levar aos órgãos de decisão o autêntico sentir dos representados, que, como sabemos, não permanece o mesmo ao longo de toda uma legislatura, mas, como é normal, está em constante evolução. Sendo assim, os nossos representantes nos órgãos de decisão não podem contentar-se com falar com os seus eleitores apenas de 4 em 4 anos. Pelo contrário, estão obrigados a accionar os mecanismos indispensáveis para auscultar com regularidade estes seus representados. E mesmo assim a participação não fica inteiramente garantida, pois há questões de fundo que implicam, por si mesmas, grandes transformações da vida social e que, por isso, precisam de ser bem identificadas, bem reflectidas, explicadas e decididas com a máxima participação de todos e no respeito pelos critérios éticos que, de facto, condicionam a vida pessoal e social de todos os cidadãos. E no que à nossa vida social diz respeito, em vez do relativismo e desprezo pelos valores que infelizmente vai minando e tomando conta de muitas decisões que comprometem a vida dos cidadãos, no nosso país, precisamos de uma nova cultura alicerçada nos valores que dignificam as pessoas e dão futuro à sociedade. Estamos a viver o Ano Sacerdotal e esperamos a vinda do Papa a Portugal no próximo mês de Maio. Desejamos aproveitar estes dois acontecimentos para, como discípulos de Cristo cumprir a especial obrigação de ajudar a nossa sociedade e a nossa cultura a reencontrarem-se consigo mesmas, na fidelidade aos valores da nossa tradição histórica, dos quais depende a vida de todos os cidadãos, incluindo as gerações futuras. O Santo Padre virá certamente interpelar a nossa Fé de cristãos e comunidades cristãs para que seja mais verdadeira, mais autêntica; mas virá também lembrar à nossa cultura e às nossas instituições sociais e de governo caminhos de afirmação dos valores essenciais para a vida pessoal e comunitária de todos os cidadãos.

 

4. Perguntamo-nos agora: onde está a fonte das energias necessárias para desencadear este processo de renovação da vida do mundo e da Igreja? A resposta é que essa fonte está na oração. Oração entendida como experiência forte do encontro com Deus na Pessoa de Cristo Ressuscitado, que vem para fazer novas todas as coisas. Ora, a nossa oração é oportunidade para pedir e agradecer os dons de Deus; é forma de contemplar, louvar e adorar o mesmo Senhor Nosso Deus. Para isso, usa palavras, umas de iniciativa da pessoa que reza, outras consagradas na vida e na tradição seculares da Igreja; mas o mais importante da oração está para além das palavras e gestos utilizados, porque, em si mesma, é o encontro vivo com Deus na Pessoa de Cristo Ressuscitado. Até chegar à experiência da oração no encontro vivo e pessoal com Deus, há sempre um longo caminho a percorrer. Desde a Família, à catequese, à celebração da Fé que enquadra a pessoa na vida da comunidade, é importante que se faça a pedagogia da oração. Sendo a oração uma necessidade da caminhada da Fé, não se pode falar em obrigação de orar imposta pela lei, mas a verdade é que também se pode aperfeiçoar e mesmo ensinar a prática e a experiência da oração. Aqui o acompanhamento da comunidade, desde a Família, à Catequese e à Liturgia, os frequentes e variados encontros com a Palavra de Deus, as próprias fórmulas de oração testadas pela tradição multissecular da Igreja são ajudas que não devemos dispensar. Temos consciência de que aqui se encontra a fonte da verdadeira transfiguração da nossa vida pessoal, da vida da Igreja e mesmo da vida do mundo. Que o Senhor nos ajude a que o nosso programa de oração nesta Quaresma seja a grande alavanca tanto do nosso progresso pessoal como da renovação da Igreja e do próprio mundo.

 

Pinhel, 28/2/2010

+Manuel R. Felício, B. da Guarda.

publicado por dioceseguardacsociais às 17:48